Por uma Mínima Costura que nos Civilize – Ariádini de Andrade


(...) A palavra mínimo insistiu em mim ao final da Jornada. Associo ela ao trabalho de duas artistas brasileiras: Néle Azevedo e Laura Freitas.
(...) Aproveito para falar de um trabalho da artista Laura Freitas chamado Quando recolhi os cacos espalhados pelo chão, que esteve em exposição no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (RJ). Laura recolhe cacos de vidros e porcelanas e os costura com um fio de tricô na tentativa de reuni-los, em vão. Ao costurar ela pode também se cortar. Então o faz com muita delicadeza e cuidado. O formato e o tamanho dos cacos dão a direção da costura ao ponto de criar um manto pesado e espesso. As qualidades do material levam a artista a tecer no chão e acolher, com linha e agulha, cada caco em seu colo.
A ação da arte proposta por Laura elucida algo que a psicanálise nos transmite: a vida como esse esforço, essa tentativa vã de reunir os cacos a partir das narrativas que nos constituem. Na impossibilidade de uni-los, podemos abrir espaço para novas formas de compor os cacos com a sustentação de costuras por um fio. Este fio do qual nos constituímos e vamos compondo é a palavra. É a partir dela e com ela que fazemos costuras mínimas que nos amarram com a vida. Esses tempos pandêmicos tem revelado esse tom do “por um fio” do qual somos feitos. São muitos os cacos durante esta pandemia. Alguns começamos a recolher; outros não avistamos que estão lá, outros ainda quiçá iremos ver. Saberemos somente a posteriori, como Freud nos lembra.
Por hora, concluo dizendo que esta escrita foi uma possibilidade de recolher alguns cacos que tem ficado pelo chão. Essa mínima costura a mais fez diferença.

Trecho do texto de Ariádini de Andrade para o site Psicanalistas pela democracia - psicanalisedemocracia.com.br
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Quando recolhi os cacos espalhados pelo chão

Laura Freitas transita entre a ação e a construção de objetos, dialogando com o crochê, o desenho, a performance, a escultura. Seus assuntos orbitam pelos lugares do feminino, da sexualidade e do espaço íntimo. Há o fálico e o fecundo quando o ovo, por exemplo, aparece recorrentemente em objetos e instalações ou, ainda, quando a gema se torna matéria – através do visgo, do peso, da cor – para desenhos ou vídeos.
Além de um vocabulário da gestação que se estende da natureza à maternidade, Laura Freitas se debruça sobre as feridas, as cicatrizes, os traumas. Não somente as da pele, mas também dos outros corpos que nos habitam, como os cacos de louça do ambiente doméstico que Laura une com fios de linha num impulso de cura ou de retorno a alguma origem – ainda que incerta, mesmo que impossível. Em Quando recolhi os cacos espalhados pelo chão, ação iniciada em 2018 que se estende infinitamente no tempo-espaço, o gesto de costurar cacos se transforma numa espécie de rito de espera que inevitavelmente nos lembra o eterno tecer de Penélope enquanto aguardava seu querido Ulisses retornar da guerra de Tróia.

Texto escrito por Ana Miguel, Brígida Baltar e Clarissa Diniz  que integra o catálogo da exposição coletiva "Ainda fazemos as coisas em grupo" , realizada no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, dezembro de 2019.


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QUANDO NASCER (OU MORRER) NÃO É UMA ESCOLHA

A casca de um ovo é tão frágil*                                                                                                                                                                                                                                                            
Quando nascer (ou morrer) não é uma escolha, individual que Laura Freitas apresenta no Espaço Cultural Correios Niterói, reúne investigações da artista em torno do ovo. Abordado através de suas diversas simbologias, ele aparece tanto na utilização de sua imagem e forma quanto na exploração de sua materialidade. Em diferentes suportes, tais como desenhos, esculturas e pequenas instalações, os trabalhos da exposição envolvem linhas de costura, agulha, carvão em pó, vidros e atadura de gesso, utilizando os ovos como disparadores.        
Os desenhos em carvão sobre papéis rasgados e costurados com linhas de algodão compõem a série que intitula a exposição, assim como as cascas de ovos quebradas, reconstruídas com ataduras gessadas e costuradas. Ambas as obras apontam para o caráter de devir do ovo e para os limites tênues entre a morte e a vida. No recente Tu és pó, a artista reúne o pó do carvão negro e o pó de casca de ovo branca que são armazenados em pequenos frascos de vidro como aqueles que guardam perfumes antigos ou pigmentos preciosos.  Preto e branco, o carvão e a casca de ovo quebrados até virar pó dessa série contrastam com a inteireza das cascas de Quando nascer (ou morrer) não é uma escolha , apesar de sua fragilidade quebradiça.
A insistência da vida diante da dissolução iminente aponta para a necessidade de seguir adiante apesar de . No livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector atesta:
Uma das coisas que aprendi, é que se deve viver ‘apesar de’. ‘Apesar de’, se deve comer. ‘Apesar de’, se deve amar. ‘Apesar de’, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio ‘apesar de’ que nos empurra para a frente. Foi o ‘apesar de’ que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.**
A presente exposição, desse modo, parece originada a partir de um longo processo de gestação e sedimentação. Nessa decantação cíclica e infinita, Freitas relaciona trabalhos que insistem em se firmar e afirmar a vida apesar da iminência da destruição e da morte.
Em outro texto da escritora, o célebre conto intitulado O ovo e a galinha ***, Lispector enuncia poeticamente: “O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época”. A fragilidade do alimento e da vida que ele contém (ou ajuda a manter) exprime, assim, o seu caráter “revolucionário” salientado pela escritora. A suspensão entre passado, presente e futuro dificulta o seu pouso e nisso reside o seu caráter atemporal: “O ovo é uma coisa suspensa.
Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo”.
No instante em que o ovo é visto, ele já é lembrança, como se tivesse sido visto há milênios. E é dessa maneira que ele escapa a qualquer entendimento. Reviver e refazer são processos que a generosidade do ovo suscita. Nascer e alimentar são necessidades prementes que a passagem de dentro para fora do ovo corrobora. Puro processo, vital e inconcluso, abordar o ovo é apontar seu caráter processual ou de preparação para algo, mas também lidar com a sua imagem da inteireza.
Nos trabalhos de Laura, assim, as vulnerabilidades do ovo são exploradas, não só em seu caráter de abrigo e proteção, mas também de ameaça. Afinal, viver é pisar em ovos o tempo inteiro, como aponta o trabalho Entrevidas , de Anna Maria Maiolino. É preciso, portanto, agarrar-se à vida, pois viver implica em correr riscos. Nascer, viver, morrer e renascer são todas ricas possibilidades de reconstrução. Por isso “o ovo vive  foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época”. Para afirmar a vida é preciso encarar a morte. Afinal, “gostar de estar vivo dói”. Definitivamente, nascer ou morrer não são escolhas. Viver, sim.

Fernanda Pequeno
Curadora
Agosto, 2019


*ABREU, Caio Fernando. “O ovo”. In Inventário do irremediável. Porto Alegre: Movimento, 1970.
**LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 26.
***Com exceção das citações que indicamos as fontes, todas as que estão entre aspas referem-se ao conto O ovo e a 
galinha de Clarice Lispector, disponível em: https://claricelispector.blogspot.com/2007/11/o-ovo-e-galinha.html​​​​​​​​​​​​​​


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FALO POR UM FIO 
 por Fernanda Pequeno

Grosso modo compreendida como símbolo fálico e de afirmação de poder, a arquitetura que Laura Freitas propõe é de outra ordem. Ela é fruto do trabalho coletivo de mulheres que crochetam esses prédios que não ficam em pé, insistem em tombar. Produzidas por linhas que unem, costuram e suturam, as cidades de Freitas negam os princípios de organização e de autoridade, substituindo-os pelo de organicidade. Ao serem coroados com ovos, esses falos afirmam a transitoriedade da vida no lugar do progresso, que insiste em impor sua atemporalidade. 
No verbete Arquitetura, publicado no Dicionário Crítico da revista Documents, Georges Bataille a enuncia como a expressão máxima da sociedade, comparando-a à fisionomia humana, expressão do ser dos indivíduos, sobretudo a de personagens oficiais. Em seu texto, o francês aponta a lógica da majestade e da autoridade, impositiva e silenciadora das multidões, concernente aos palácios e às catedrais. Em sua crítica da monumentalidade e da verticalidade arquitetural,  assim, Bataille afirma que o ser humano, em seu processo morfológico, seria uma espécie de etapa intermediária entre os macacos e os grandes edifícios. Para ele, a passagem da forma simiesca à humana já apresentaria todos os princípios da arquitetura. Com a postura ereta, a cabeça e, consequentemente, a razão se tornariam privilegiadas no ser humano. 
Na presente exibição, Laura Freitas desfaz a ordenação matemática arquitetural para propor construções mais próximas do corpo, tanto em procedimentos, como em escala, cor e materialidade. Suas imagens referenciam certa tradição da arte feminista, aludindo trabalhos de Anita Steckel, Anna Maria Maiolino, Ana Miguel, Faith Wilding, Louise Bourgeois, Lygia Pape, entre outras artistas. 
Freitas sugere uma espécie de antiarquitetura. O processo que deu origem à sua exposição individual constitui-se como uma crítica aos pressupostos ordenadores e rígidos, uma vez que, a artista privilegiou o eixo horizontal, em detrimento do vertical. Ao montar a sua instalação no chão, enfatiza a fragilidade e a escala reduzida das peças, desfazendo hierarquias. 
A partir de uma convocatória divulgada em redes sociais, Laura propôs uma série de encontros, recheados de conversas sobre a arte e a vida e, juntamente com mulheres de diversas origens e faixas etárias que aderiram ao seu chamado, produziu os falos que compõem a sua instalação agora em cartaz na Galeria Candido Portinari. Ao propor uma arquitetura mole, a artista confronta o espaço rígido da instituição artística e sublinha o fato de se tratar de uma galeria universitária, local por excelência de trocas intelectuais, diálogos acadêmicos e de liberdade e experimentação artística. 
Durante os encontros semanais que erigiram Falo por um fio, as falas e os falos criaram pontes, espelhamentos, aproximações e identificações, nos quais as linhas de crochê, mais do que formar imagens, suturam e unem as subjetividades e a diversidade das histórias. As ligações entre a artista, enquanto catalisadora, e as mulheres que atuam como coautoras dessa proposição, se firmam no tecer e nas falas, verbalizações de traumas, estranhamentos e memórias. Através dos fios, produzem os falos que compõem o trabalho da artista.
Falo por um fio, assim, tanto alude ao diálogo, imprescindível para a produção e para a fruição artística, quanto ao órgão sexual masculino. Fá-lo também referencia o verbo fazer, conjugado incessantemente no processo de produção de trabalhos de arte e, mais especificamente, das obras que compõem essa exposição. Frutos das mãos e de seus gestos, as peças valorizam os trabalhos que as geraram. Fruto de muitas horas de trabalho, esses fios conectam mulheres, unindo diferentes temporalidades. 
O falar, aqui, é compreendido como a ação implicada na emissão de sons, na possibilidade de comunicação, do externalizar e compartilhar ideias e pensamentos, tão prementes no momento atual. A boca é o primeiro molde, o limite entre interior e exterior e nela está a língua, órgão essencial à produção da fala. Enquanto cavidade, junto com a cabeça, a boca funciona como caixa de ressonância dos sons produzidos pela movimentação do ar no interior do corpo, possibilitando a comunicação. A fala é individual, uma vez que cada pessoa possui um timbre de voz que a distingue das demais, mas o diálogo pressupõe interlocução e escuta. 
O falo também é abordado pela artista enquanto símbolo de potência geradora da natureza, presente em diversas culturas ao longo dos tempos. E, ironicamente, para construir essas narrativas, a artista atualiza técnicas artesanais tradicionais, historicamente circunscritas ao “feminino”. A historiadora da arte Griselda Pollock, entretanto, desnaturaliza as categorias mulher e feminino, apontando-as enquanto construções históricas. Tais categorias não são neutras ou dadas a priori, mas socialmente instituídas. 
Acionando materiais como a linha de crochê e o ovo, Freitas sublinha a proteção e o abrigo, além da capacidade geradora da vida. A fragilidade da casca se soma à ancestralidade dessa forma, já apontada por Yayoi Kusama, e sua obsessão infinita pela forma circular. Também artistas como Maiolino, Pape e Ana Miguel fizeram uso deste “protótipo da inteireza”. 
Laura coleciona ovos, de modo a acumular as suas cascas, organizando-as sobre os falos de crochê vazados. Preenchendo orifícios, eles sugerem olhos e outros órgãos, volumes e reentrâncias. Possibilidades infinitas de dentro-fora, os ovos estão sempre no começo, simples e abertos, como sugere Hélio Oiticica em seu texto sobre O Ovo, de Lygia Pape: “Ovo não tem lugar como algo estático no espaço e no tempo:/ é processo: vital e inconcluso: limite entre o feito e o não feito”. Os vídeos de Freitas também anunciam umidades fisiológicas, de mucos, lágrimas e saliva. Olho e língua espreitam e tentam se impor. Mas o lugar privilegiado da visão é desfeito, pois aqui se experimenta com o corpo inteiro. 
Nos trabalhos da exposição, assim, se fazem presentes relações entre o interior e o exterior, processo e resultado, concavidade e convexidade, cheios e vazios, orifícios e volumes, olhos e bocas, falos e reentrâncias, unicidade e multiplicidade. Possibilidades em aberto, a proposta é de uma arquitetura cheia de potencialidades a se construir, com trocas e afetos, como se fossem fios a se encontrar...


(1) BATAILLE, Georges. “Georges Bataille: textos para a revista Documents”. In: Inimigo Rumor nº 19. Rio de Janeiro e São Paulo: 7Letras e Cosac Naify, 2ºsemestre de 2006 / 1º semestre de 2007. Traduções de Marcelo Jacques e João Camillo Penna.
(2) POLLOCK, Griselda. “Intervenciones feministas en las historias del arte. Una introducción”. In Visión y Diferencia. Buenos Aires: Fiordo, 2015.
(3) Anna Maria Maiolino, em depoimento a Helena Tatay. In Anna Maria Maiolino. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 249.
(4) OITICICA, Hélio. “Pape: Ovo”. In PAPE, Lygia. Gávea de tocaia. São Paulo: Cosac Naify, 2000, p. 302.

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FALO POR UM FIO 
por Aline Rena

Com exceção das luzes que emanam de duas grandes projeções nas paredes, a sala é praticamente toda escura. Ou pelo menos é assim que a percebo. A sensação é de tranquilidade. As projeções dão movimento constante ao espaço e captam de imediato meu olhar. Mas é no arranjo esparramado no chão que ele se detém e o impulso de me abaixar para examiná-lo de perto é incontrolável.
Ali, tão frágeis e delicados, repousam centenas de pequenos objetos feitos de crochê e cascas de ovos. Sua forma inconfundível é enunciada pelo título da exposição. De pé, inclinados, deitados, envergados, rígidos ou moles, cada falo parece ter encontrado sua posição mais confortável naquela pequena floresta, onde parecem desfrutar do calor da fraca iluminação. Do rés-do-chão, alguns me fitam diretamente, outros sequer dão-se conta da minha presença. Tão frágeis eles são. Tão vulneráveis em sua materialidade e disposição naquele espaço. Mais uma vez, é o título da exposição que me informa: eles estão por um fio. Por um fio de serem esmagados pelos meus pés. Por um fio de serem adorados por mim. Por um fio a ser puxado...
A paleta terrosa do material lembra as cores da pele humana, mas, se diferenciam-se pelos tons, não o fazem pelo tamanho. Não há maiores nem menores. Há apenas o necessário para que a casca de um único ovo complete delicadamente cada estrutura tecida, ao mesmo tempo em que é envolvida e aconchegada por ela. Também aí, todos estão por um fio, protegidos por ele.
Lembro de cidades na Grécia antiga, de ruas adornadas com falos gigantes que se impunham perante os habitantes como símbolos de vida e fertilidade. Aqui, os falos de ovos de Laura Freitas também pulsam vitalidade, mesmo que esvaziados de seu conteúdo orgânico, mas têm tamanho compatível com os de falos humanos. São, assim, falos possíveis. Já não querem se impor, mas deixam-se formar por muitas mãos femininas, que os tecem delicada e dedicadamente. Por horas a fio.


Rio de Janeiro, 2019

1 A exposição “falo por um FIO”, com curadoria de Fernanda Pequeno, foi apresentada na Galeria Candido Portinari, na UERJ, do dia 5 de julho ao
 dia 22 de agosto de, 2019.